Angel
Leitora, sobretudo de clássicos. Estudando F. Scott Fitzgerald e o trauma (sobretudo o da/e por conta da guerra) na literatura. E como escreveu Marguerite Duras: "Escrever, era essa a única coisa que povoava a minha vida e que a encantava. Eu fiz isso. A escrita nunca me abandonou."

Mistérios em aberto: "Detetives insólitos", por João Riehs Onofre


Recentemente recebi, da Kotter Editorial, o livro Detetives Insólitos, escrito por João Riehs Onofre. Lendo a curta biografia do autor na orelha do livro, descobrimos que João é psicólogo e possui título de especialista em Psicologia Escolar - só não ficou claro que ele é o escritor de um livro que conquista, prende e cativa seus leitores. Terminei a leitura em cinco dias: lia no metrô, antes de dormir, nas pausas que eu tinha ao longo do dia. Não conseguia deixar de querer me unir aos detetives de suas narrativas. E é por isso que te digo: se eu fosse você, correria ler esse mistério. 

Sobre o livro

Detetives Insólitos reúne 6 contos misteriosos com um grande ponto em comum: os protagonistas são observadores o bastante para entenderem que seus cotidianos escondem pistas que apenas um detetive insólito seria capaz de compreender. Esses personagens não são sagazes como Sherlock Holmes, muito menos como Poirot, e talvez seja exatamente aí que mora o prazer dessa leitura: os contos são pano de fundo para pessoas como nós, leitores, e que de repente se deparam com o inesperado. O interessante disso é que se cria uma aproximação com quem lê a obra, o que muitas vezes instiga a pensar "O que eu faria se estivesse nessa história?". 

O primeiro conto, Forasteira, acompanha uma mulher que se muda para uma cidade bastante peculiar. Os demais cidadãos desse lugar são curiosos, dignos da investigação de um detetive insólito. Deslocada diante às mudanças que enfrenta em sua vida, a personagem passa a querer entender de onde vem aquela aura de estranhamento que paira a cidade. Afinal, o que há de mais assustador do que estar no meio de verdadeiros desconhecidos? 
"Houve primeiro um esvaziamento, era como se não estivesse mais em mim mesma e, justamente por isso, pudesse estar em qualquer coisa. [...] Me senti apertada em meu corpo, como pé calçado em sapato menor." (p. 11)
Rota de colisão, o segundo conto do livro, certamente foi o que me deixou mais curiosa pelo final. Narrado em primeira pessoa, aqui nos deparamos com dois grandes amigos de infância: Gomez, o narrador, e Estevão. Funcionários da polícia, ambos tiveram contato com uma tenebrosa cena de crime pela manhã - mas esse não é, nem de longe, o real problema. Desse conto não posso contar muito, mas menciono algo que lembrei: não por acaso Dante Alighieri destinou o nono círculo do Inferno aos traidores. 

Seguimos com Esculturas de fumaça, o conto que certamente será o favorito dos leitores de ficção científica. O pano de fundo é uma distopia e nada mais é como conhecemos: pessoas vivem no subterrâneo (os unders), mas outros ainda habitam a superfície (os surf); os cidadãos são constantemente monitorados por um dispositivo chamado Chip Gaia. Acompanhamos a protagonista, a detetive De Rossi, que, em meio ao considerável caos de seu cotidiano, investiga o desaparecimento de algumas pessoas. E o principal suspeito? Um jogo.

Ambivalência, de todos os contos do compilado, é o que mais se aproxima da rotina "simples" que levamos. Aqui veremos uma verdadeira discussão ao redor de um assunto que intimida muitas pessoas: as superstições. Após o protagonista passar por debaixo de uma escada, situações humilhantes e desconcertantes passam a acontecer. Mas, afinal, não são eventos que todos nós estamos suscetíveis a passar? Ou será que, de fato, passar embaixo de uma escada é uma espécie de sentença de azar? No caso de ser mesmo essa maldição contada popularmente, o que seria capaz de reverter o caos causado?

O penúltimo conto, E.D.A (Escritório de Detetives Aleatórios), tem um tom mais melancólico, ao meu ver. Claro que não posso entregar nada muito aprofundado ao longo desse texto, mas sinto que é um conto em que há uma Coisa sendo procura: o sentido da vida. Logo de início conhecemos o protagonista, um homem amargurado e afundado em dívidas. Entre sua rotina repetitiva e solitária, recebe uma correspondência, cujo remetente era o Escritório de Detetives Aleatórios. Para enfatizar ainda mais o quê de curiosidade, na carta estava escrito: "Esta é sua chance de se tornar um Detetive Aleatório. Para aceitar, pisque as luzes da janela da frente duas vezes às 20h07".

Finalizando o livro, o meu conto favorito: Desdobramentos de carbono. Nesta instigante narrativa, acompanharemos um Lixeiro com um hobby típico de um detetive insólito: em suas coletas, selecionava sacos de lixos, que pareciam interessantes, para destrinchar depois de seu horário de trabalho. Em seu expediente, passava por ruas luxuosas, essas que abrigavam casas e carros de preços inimagináveis. Dentre tanto luxo, o protagonista se interessa pelo lixo de um desses moradores - só não esperava encontrar um dedo humano perdido naquele material descartado.
"O apocalipse humano não é um só, ele vem dividido e segue sendo reescrito do início da espécie até o último suspiro de seu último representante." (p. 44)
De modo geral, Detetives Insólitos se tornou uma das leituras favoritas do ano! Gosto, porém, de finais mais lapidados - e os contos do autor têm um enredo em aberto que me incomoda um pouco (mas bem pouco mesmo). Além disso, acho que algumas histórias poderiam ser bem maiores, para que, assim, a narrativa conseguisse tomar sua forma natural e bem construída. No caso de "Esculturas de fumaça", por exemplo, sinto que há todo um interessante universo que ficou de lado e foi pouco explorado - na verdade, esse conto é digno de um calhamaço!